[VERÃO] Meu escritório é na praia ou que tipo de imagem quero construir nas minhas fotos?


Fim de ano. Férias. Descanso. Pés pro alto. Praia. Enxergou o verão aí?

Não sei se você sabe, mas esse é um exercício simples de visualização e direcionamento do leitor/espectador.

Essas poucas palavras que usei transportam você pra uma ideia de que o verão e a praia são o paraíso, não é? E suas memorias de verão, são essas mesmo?

Algumas ideias e imagens são muito fortes e fazem parte quase de uma "verdade coletiva". Isso pode ser bom e ruim, como quase tudo na vida.


Bom porque ela pode estar associada a uma função como em uma propaganda, por exemplo. As imagens de verão estão sempre associadas a uma ideia de descanso e felicidade. Nada errado com isso. Eu, particularmente, amo o verão. Sem dúvida, é a época em que mais trabalho porque simplesmente adoro a energia, o sol o dia todo, a (quase) felicidade das pessoas. Por mim, seria verão (e horário de verão) o ano todo.

Mas essa não é a realidade de todo mundo e aí chegamos na parte ruim da "verdade coletiva": ela não é real. É uma representação generalizada muito bem vendida pro nosso desejo de paraíso e fuga dos problemas. Nesse caso, todo mundo sabe da loucura que é o verão nas cidades praianas: muita gente, o mesmo trânsito do ano todo, calor insuportável, pra muitos, mosquitos, queimaduras de sol. Ou seja, nada feliz sob esse aspecto.


E o que tudo isso tem a ver com minhas fotos de verão?


A primeira vez que resolvi fotografar o verão, a praia, etc, eu estava num momento bem difícil. Minha mãe tinha acabado de falecer e fui passar um tempo com minha irmã em Santos. pra dar uma mudada de ares. Diferente de todas as outras fotos, eu não tinha pensado nada especificamente, nem estava cheia de referências de imagens. Pelo contrário.

Fazia alguns meses que eu estava meio absorta nas imagens do italiano Massimo Vitali provavelmente porque a minha vida não estava nada fácil com minha mãe e aquele sentimento de fuga estava ainda mais latente que o normal. Quando vi as fotos dele em metacrilato na SP-Arte Foto a primeira coisa que me chamou a atenção foi o azul. Depois, o céu estourado, como dizemos em fotografia. Branco. Quebrou totalmente meu olhar viciado de internet e belezas naturais brasileiras.

Aí, cheguei em Santos pra fugir da tristeza toda. Não era o Mediterrâneo. Não era o mar do Caribe, do Rio, ou aquele charme sensual de qualquer foto de viagem. Era uma praia urbana muito cheia. E todos aqueles problemas que falei no início que são a realidade das memorias de verão.



E ali, no meio da minha decepção do paraíso, mais luto, mais a vida que não seria nada simples dali há poucos dias eu me perguntei: o que é que eu quero fotografar mesmo? Ou melhor, que tipo de imagem quero construir com minhas fotos? Então se não estou num hotel caríssimo, num resort x, num restaurante y, no Mediterrâneo, por exemplo, não farei boas fotos de verão?

Hahahahaha. Ah, farei, sim!

E aí comecei a organizar o pensamento. 

Virou a série Cenas Santistas da qual falarei mais em outro post.

Com coisas boas e ruins do verão porque as memórias são feitas das duas coisas. 



Por outro lado, as imagens podem ser contextualizadas com muitas possibilidades e isso já não está 100% no meu controle. Uma vez no mundo, a imagem pode ganhar sua própria historia. Não tenho pretensão nem ingenuidade pra pensar que ela será estática e nunca servirá a uma função. 

O que está ao meu alcance é só a concepção, captação e edição. O significado vem dos nossos desejos. Olhar e ser olhado pela foto é um diálogo que nos reflete. 



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