[VERÃO] Aí o Rio de Janeiro chegou arrasador na minha vida ou o desafio de fotografar uma cidade muito fotografada


Fotografar no Rio de Janeiro no verão de 2016 foi puro acaso.

Eu estava meio namorando, meio não namorando um fotógrafo carioca desde novembro quando fui pro Rio a trabalho e acabei saindo de lá conhecendo mais museus do que praia. Pronto, eu já estava apaixonada: pelo Rio e pelo fotógrafo. Meu cérebro é assim: se apaixona por quem mexe com ele. Nossa historia ainda durou mais um ano e depois conto melhor esse desenrolar todo, porque ainda tenho muitas fotos que vieram ou virão dessa historia.



Fato é que no verão daquele ano o Rio chegou arrasador na minha vida. Eu sou paulistana (paulista, na gíria carioca) e pra quem não é de São Paulo, nem do Rio já conto que há uma certa rixa entre as cidades. E fico muito feliz de dizer que sou uma paulista que moraria muito facilmente no Rio. Amo muitas coisas lá, detesto outras, muito parecido com São Paulo, na verdade. Aliás, se eu morasse lá ia querer viver saindo da cidade, exatamente como faço agora, porque às vezes esse detestar toma proporções muito maiores do que o gostar. E a vida necessita de pausas, já diria o Drummond. 

Voltando: por acaso, deu certo de ficar no Rio no fim de dezembro por alguns dias e lá fui eu começar a fotografar a cidade acompanhada de alguém que conhecia a cidade muito bem e sabia que era muito prudente evitar muitos pontos turísticos aquela época do ano. Acabei conhecendo lugares menos percorridos no Centro, museus sem grandes movimentações (que eu frequentaria incansavelmente depois), mirantes para fotógrafos (e turistas também, mas os fotógrafos da área eram maioria), a impressionante e linda Floresta da Tijuca e claro, as praias.

E falando em praias, a minha querida até o momento, sem dúvida, é Ipanema. Vou falar como fotógrafa: a luz de lá é impressionante. Não por acaso é onde as pessoas aplaudem o pôr do Sol. Perto do fim do dia às pessoas vão chegando, se acomodando onde dá (e sim, é muita gente) pela praia, Pedra do Arpoador, calçadão afora. Tudo pra esperar o espetáculo. É hipnotizante. E a luz, ah aquela luz.



Quando comecei a fotografar lá e pensar a série, eu tinha algumas questões pra lidar: 

1.Como fotografar uma cidade já incansavelmente fotografada? 

Para o Rio, eu não busquei referências antes de fotografar porque em todo lugar se vê fotos do Rio. Todos os pontos turísticos tem um milhão de fotos no Instagram, Facebook, internet, livros. E eu já havia visto muuuuuito em toda a minha vida de livreira e fotógrafa. Resolvi que nesse caso, menos era mais.


2.Como tirar da minha mente todo o imaginário que já me acompanhava e criar algo novo? 

Além da cidade ter essa quantidade louca de fotos, eu tinha ainda outros imaginários muito presentes: a música e a literatura. Ouvi e ouço muito Tom Jobim, Vinicius, Chico. Li Clarice Lispector, Machado de Assis, José de Alencar (!) aos montes. Muitos Rios pra lidar. 

3.Como tirar da minha cabeça as cores fortes, quase Pop Art que me seguiam desde o primeiro dia?

Eu costumo dizer que nossas referências são absolutamente tudo o que pode haver de mais importante na hora de compor qualquer coisa que tenha a ver com arte: escrita, pintura, fotografia, performance e outras possibilidades. Acho que vai muito mais além, mas vou me ater aos assuntos artísticos apenas. Acredito que quando você internaliza o conhecimento, ele fica latente, guardadinho em algum lugar do seu subconsciente, esperando o momento de ser usado. Às vezes porque está sendo pedido (você está procurando na mente quem pintou, o nome do artista, do movimento, etc) e às vezes porque há uma correlação que você registrou, mas nem sabe. Por exemplo, quando eu cheguei ao Rio e aquele calor todo me abraçou (eu adoro, tá? então simplesmente adorei rsrsrs) os quarenta graus da música fizeram muito sentido. E ao longo dos dias, enquanto eu ia fotografando, fazia sentido também usar cores fortes. Muito mais do que o azul que eu havia usado anteriormente nas Cenas Santistas. Em algum momento, a Marilyn Monroe do Warhol passou a ser um modelo e eu jamais diria que o Rio me levaria à Pop Art. Mas fazia muito sentido.

O rosto da Marilyn representado muitas vezes com as fortes cores publicitárias da época eram uma maneira de aproximar o público ao mesmo tempo que despersonalizava o mito. Em outras palavras: era o paradoxo de aproximar tanto que ela já não era ela mesma. Era um mito. E era muito próxima de quem via. Essa é a ideia do pop em qualquer área. E o Rio é muito pop. hahaha

Mas esse exercício todo não foi imediato. Conforme eu ia fotografando, algumas coisas iam passando pela minha cabeça, mas só fui editar e elaborar o conceito todo alguns meses depois

O resultado de tudo isso foi a série O Rio de Janeiro Continua. O nome veio da música (Aquele Abraço, do Gilberto Gil), claro, e da ideia de que pra mim, o Rio virou algo interminável, como São Paulo. Fontes de temas infinitos. E mais ainda: apesar de todos os outros contextos em que essa cidade está totalmente mergulhada (violência, pobreza, falência do estado, desordem das contas públicas) aquela certeza de que ela continua linda, sendo, em qualquer época do ano uma jóia rara, pop e nada simples.

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